O gol irregular de Márcio Araújo nos últimos minutos do Carioca de 2014 doeu na alma vascaína. Não apenas por perder o título que não conquistava desde 2003 ou por ser diante do maior rival, o Flamengo. Mas pela sensação de que tinham tomado do Vasco, à força e de forma irregular, o que de direito era do time: a taça de campeão carioca. Eurico Miranda, fora do poder desde 2008, viu a brecha. Ganhou força. Pouco mais de um ano depois, ele sorri: o título do Carioca de 2015 irá para São Januário.
A vitória sobre o Botafogo reforçou ainda mais slogan do velho cartola. De volta ao poder do Vasco ao vencer a eleição do fim de 2014, Eurico prometeu ao vascaíno: "o respeito vai voltar". E ele agiu. Utilizando-se do prestígio junto à Ferj,o presidente vascaíno tornou-se um dos protagonistas da conquista do clube. Era um título desejado. A ultima vez que fora conquistado, em 2003, sobre o Fluminense, Eurico era presidente.
Primeiro, o cartola contratou um técnico de bom retrospecto e o garantiu respaldo: desejava ganhar do arquirrival Flamengo e conquistar o título carioca. Doriva sorriu. Teve alguns reforços considerados até improváveis a um clube que vivia graves dificuldades financeiras já em 2014. Gilberto e Dagoberto chegaram. Madson deixou o Bahia. O Vasco se encorpou ao longo da competição. Eurico se fez presente.
Não só no dia a dia do elenco, com presença no vestiário após os jogos. O cartola esteve atento ao cenário político. Desestabilizou os maiores rivais, Flamengo e Fluminense, de uma tacada só: alinhou com os clubes menores o ajustes por preços populars no Carioca. Foi tiro e queda. A dupla Fla-Flu se insurgiu contra a Federação. O Consórcio Maracanã tentou se rebelar. De longe, Eurico ria. E os ingressos permaneceram mais baratos.
No clube rubro-negro, um dos principais nomes da diretoria, o então vice de marketing, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, deixou o clube por não ser atendido em um pedido de medida enérgica contra a Ferj. Peter Siemsen, mandatário tricolor, trocou alinetadas públicas com o presidente da Federação, Rubens Lopes. A dupla se fragilizou.
Contra o Tricolor, Eurico se valeu de outro golpe: a disputa pelo lado de torcida do Maracanã. O Vasco desejava o lado direito da tribuna de imprensa. O Fluminense alegava ter direito ao mesmo setor por contrato. Sem acerto, Eurico venceu. O clássico não foi disputado no Maracanã e parou no Engenhão. Vitória vascaína, por 1 a 0. Irritados com o panorama, o técnico do Flamengo, Vanderlei Luxeburgo, e o atacante Fred, do Fluminense, criticaram a Ferj. Acabaram punidos. O tricolor, inclusive, sugeriu benefício ao Vasco, que chegou a ter três pênaltis em um só jogo, contra o Friburguense. O cartola respondeu ao seu estilo.
"O Fred veio com uma afirmação de chegar ao ponto de que o campeonato tinha que acabar. Claro que para ele tinha que acabar. Não importa que três mil pessoas deixem de trabalhar, o dele está segurado. E não satisfeito, vem o senhor Mário Bittencourt. Eu não quero responder essas pessoas, mas é o que eu vi e que atinge diretamente o Vasco. Diz esse Mario que alguns clubes têm pênalti a cada jogo, curiosamente nos acréscimos. É muito triste ele falar isso, esse rapaz é um irresponsável", disse Eurico.
Com o Vasco classificado para a semifinal do Campeonato Carioca, Eurico evitou grandes holofotes. Aguardou apenas o embate com o arquirrival Flamengo, no que chama de "campeonato à parte", para desabafar. Após a vitória de 1 a 0 no Maracanã e a vaga na final, os relatos do vestiário vascaíno é de que Eurico pareca um "garoto de 15 anos". Feliz, deixou o estádio reforçando seu slogan para abocanhar o apoio da massa vascaína. No site oficial, mandou um recado com a frase e uma pena de urubu sob uma gota de sangue.
"O respeito voltou. Ponto. Contra tudo e contra todos. O respeito voltou", disse, com um sorriso irônico na expressão.
Após o título, ele ganhou fortes elogios do técnico Doriva, que garantiu ter se sentido protegido pelo cartola.
"Presidente é fantástico. É uma pessoa muito carismática. Desde o primeiro momento, na minha apresentação, quando vocês achavam que proibiam vocês de fazer pergunta, eu senti diferença. Estava me protegendo. Eu me senti abraçado. A gente fica feliz de trabalhar com ele, como é uma pessoa honesta, verdadeira, como valoriza o sentido da família. É um personagem. A gente sente isso dentro do Vasco, os pormenores da família", disse Doriva.
No segundo jogo da final, o slogan ganhou a arquibancada e o campo. Durante a festa do título no gramado, uma faixa com a frase foi mostrada aos jogadores. Capitalização máxima. O cartola entregou o trofeu aos jogadores, no palco montado no meio do Maracanã. De um Carioca a outro, Eurico ressurgiu no cenário esportivo brasileiro. O Vasco é campeão carioca após 12 anos. Em meio às baforadas de charuto, Eurico capitalizou ainda mais com seu slogan.
0 comentários:
Postar um comentário