Vinte anos separam as fotos abaixo, que retratam a família do jogador
Dener, morto em um acidente de carro em 1994, no Rio de Janeiro. A imagem mais antiga, com todo mundo no sofá, foi feita logo após o acidente e mostra a viúva, Luciana Gabino, e os três filhos. Nas imagens atuais, fica claro que o colo ficou pequeno até para o caçula. As molduras das duas fotos são as mesmas: a saudade, a angústia e a indignação pela reparação financeira que ainda não chegou.
Depois de duas décadas, a família ainda não recebeu todo o dinheiro do seguro de vida devido pelo Vasco, clube que Dener defendia na época em que morreu. "O grande sonho da minha vida é receber esse dinheiro. É uma luta de 20 anos. Eu não estou passando fome, não quero sensacionalismo, só quero os meus direitos. Eu ganhei na Justiça. Espero que pelo menos os meus netos possam recebê-lo", afirma a viúva.
Desde agosto de 2012, não cai um centavo na conta de Luciana. No ano passado, o advogado da família, Renato Menezes, protocolou uma ação de execução para recolher os saldos das contas bancárias do Vasco para o pagamento da dívida. Encontrou zero de saldo. Agora, entrou com um pedido de penhora das rendas da equipe na Série B do Brasileiro. Isso inclui bilheteria, cotas de patrocínio e de televisão. O processo corre na 20.ª Vara Trabalhista de São Paulo. Como o clube perdeu os seis primeiros mandos de campo na Série B como punição pela briga dos torcedores em Joinville, na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, o pedido de penhora será reapresentado depois da Copa. "Parece que estamos pedindo esmola", protesta o advogado.


Dirigentes do Vasco não quiseram se pronunciar oficialmente, mas reconheceram a dívida. A justificativa para a interrupção do pagamento é a crise financeira vivida pelo clube nos últimos anos. Eles dizem que a arrecadação é dirigida para manter o clube sobrevivendo e que não há como fazer um acordo agora. Também afirmam que não existem recursos suficientes para pagar a dívida.
Mas é preciso contar a história do começo. No dia 19 de abril de 1994, a carreira em ascensão de Dener foi interrompida tragicamente por um acidente na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. O seu Mitsubishi Eclipse branco, dirigido por um amigo, atingiu com violência uma árvore. Dener se sentava no banco do passageiro e, como o banco estava totalmente inclinado, acabou sufocado pelo próprio cinto de segurança. Tinha 23 anos.
O passe de Dener (naquela época ainda existia o passe) pertencia à Portuguesa, mas ele estava emprestado ao Vasco. Aí começa o drama que alcança a segunda geração da família. O clube carioca ignorou o seguro de vida que constava do contrato de trabalho do atleta. Em agosto de 2003, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) condenou o Vasco por essa falha. Para a Lusa, deveria ser feito um pagamento de R$ 4,6 milhões. Para a viúva, R$ 5 milhões.
O clube, no entanto, não reconhecia Luciana Gabino como esposa, pois eles não eram casados de papel passado. Luciana enfrentou uma negociação difícil com Eurico Miranda, um dos dirigentes mais casca-grossa do futebol brasileiro. "O Eurico falava que não devia nada", conta Luciana. A queda de braço durou 13 anos. Sim, 13 anos. No momento mais difícil, a viúva chegou a ser ameaçada de despejo por atraso no pagamento do condomínio em que vive, na zona norte. Em 2007, Luciana cedeu. Ninguém confirma os valores, mas o Estado noticiou à época que o valor inicial do acordo, de R$ 24 milhões, caiu para R$ 16 milhões e, depois, despencou para R$ 3,2 milhões, a serem pagos em 36 parcelas.
"O Eurico recebe muitas críticas, mas ele sempre pagou tudo em dia depois que o acordo foi feito. Foram 12 parcelas. O problema aconteceu quando mudou a presidência do Vasco e assumiu o Roberto Dinamite (em junho de 2008). Aí, foram três anos para pagarem mais 11 parcelas. Desde 2012, não pagam nada", reclama o advogado, dizendo que a dívida foi alongada – com parcelas menores e prazos maiores -, mas, mesmo assim, nada. Com a Portuguesa, não existe qualquer pendência.
Hoje, a renda principal da família é a pensão do INSS pela morte de Dener. Também ajuda a porcentagem pelas vendas de uma camisa especial de 2012, um tributo ao gol mais bonito da história do Canindé, marcado em 1991, contra a Inter de Limeira. O caçula Dener Mateus trabalha em um escritório de contabilidade. Denis e Felipe estão procurando emprego depois que desistiram da carreira no futebol.
SAUDADE
A leitura do texto até aqui faz parecer que a indignação é maior do que a saudade. Não é. Dener foi o primeiro namorado de Luciana. Depois da morte, ela teve outros namorados, chegou a ter outra filha – Barbara –, mas não se casou de novo. A música do casal é Let's get it on, de Marvin Gaye. Depois de uma união de oito anos e três meses, e dos 20 anos da morte do companheiro, Dener ainda é o titular no coração de Luciana.
Para os três filhos, as lembranças do pai ficam restritas aos relatos de amigos e a vídeos da internet. "Procuro forçar a memória para tentar me lembrar de alguma coisa, mas não vem nenhum flash. Hoje, conseguimos administrar melhor a saudade, mas ainda dói quando vemos os vídeos", diz Denis. A ausência do pai foi um longo caminho a ser superado. Quando os meninos eram menores, começavam a chorar quando o pai aparecia na tevê. Esse sentimento, no entanto, não é patrimônio familiar. O Brasil compartilha essa saudade. O saudoso cronista Armando Nogueira escreveu que o meia só morreu porque estava dormindo. Se estivesse acordado, teria driblado a morte.